TER UM BICHO FAZ BEM À SAÚDE

Médicos, cientistas e companhia estão à caça de uma nova (e certeira) tática para domar o boom de doenças cardiovasculares. É uma busca preocupante: infartos e derrames figuram hoje como a principal causa de morte no mundo. A receita para prevenir o entupimento das artérias, você deve saber, passa por alimentação balanceada, atividade física, controle do estresse... Na teoria, muito simples. Na prática, outros quinhentos. Ciente de que mudar o estilo de vida é, para a maioria das pessoas, uma missão hercúlea, a Associação Americana do Coração (AHA, na sigla em inglês) decidiu vasculhar outras estratégias capazes de viabilizar esse plano de contenção. E, após vasta pesquisa, chegou a um aliado inusitado. Ele é peludo, tem quatro patas e, às vezes, dá aquele olhar pidão. O documento publicado pela AHA atesta categoricamente: ter um bicho de estimação, em especial um cachorro, reduz a probabilidade de sofrer um piripaque cardíaco. "Na última década, travamos conhecimento de diversos estudos associando os pets a um menor risco cardiovascular", declara o cardiologista Glenn Levín, autor da revisão científica que embasa a entidade. Um desses trabalhos, feito na Austrália, analisou 5 741 pessoas e detectou que os donos de animais apresentam níveis de pressão arterial e gordura no sangue significativamente mais baixos do que os sujeitos sem um bicho em casa. Outras pesquisas, que sedimentam a declaração da AHA, ajudam a entender achados como esse. Elas revelam que ter um cão nos deixa menos sedentários, por exemplo. Brincar e passear com o amigo quadrúpede torna as pessoas até 70 mais propensas a bater a meta recomendada de exercícios - no mínimo meia hora por dia, cinco vezes por semana. Já faz diferença para afugentar ameaças aos vasos sanguíneos, como colesterol alto e hipertensão. Um levantamento australiano apurou que os passeios em volta do quarteirão acrescentam dez minutos ao tempo semanal de caminhadas. Parece pouco, mas ajuda a tirar o organismo da zona de conforto sedentário. Outro estudo, este da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, descobriu que os cães acabam com a desculpa de não andar pelas ruas porque espantam inclusive a sensação de insegurança (claro que o porte conta alguns pontos aqui). Aí, com a coleira na mão, aumentam as chances de o dono se safar também dos quilos extras. Mas as vantagens não se restringem ao incentivo para hábitos saudáveis. A convivência afasta a solidão, reduz a tensão e injeta felicidade. Bastam 20 minutos de interação com o mascote - cachorro, gato, papagaio... - para uma cascata de neurotransmissores e hormônios inundar nosso corpo. Testes feitos pelo zoólogo sul-africano Johannes Odendaal registraram aumento na liberação de dopamina e endorfina (prazer), ocitocina (afeto) e feniletilamina (um antidepressivo natural). "São substâncias que contribuem para baixar o estresse e a pressão, importantes fatores de risco para o coração", diz o cirurgião cardíaco Eduardo Keller Saadi, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul...

... A paixão pelos animais é tamanha que cientistas estão tentando decifrar a tendência atual de optar por ter mais bichos de estimação do que filhos - algo que, como mostra o IBGE, já acontece no país. O fato é que, embora os motivos que levam as pessoas a adotar um labrador, um coelho ou um canário nem sempre sejam os mesmos, nossa atração por outras espécies tem razões biológicas e sociais, forjadas em milênios de convívio. Recentemente, um grupo de estudiosos suecos revelou que os cães foram domesticados entre 27 e 40 mil anos atrás. Sim, é uma troca de favores (eu lhe dou abrigo, você me dá proteção) muito antiga e que foi passada de geração em geração. As razões dessa amizade mudaram, mas permanece o apego hereditário por cachorros - e, com o tempo, por outros membros da fauna. Aliás, a própria reação dos bebês diante dos pets atesta quão inato é esse apego. A psicóloga Vanessa LoBue e colegas da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos, conduziram, em 2013, um experimento para testar se crianças de 1 a 3 anos preferiam brincar com bichos de pelúcia ou animais de verdade. Não deu outra: os pequenos gostam mesmo é de interagir com os tipos de carne, osso e sentimentos. Na cabeça dos adultos, os bichos ganham realmente um status de crianças eternas, como comprovou um trabalho do Hospital Geral de Massachusetts, também em terra americana. Quatorze mães (no sentido literal) foram submetidas a exames de ressonância do crânio enquanto olhavam para fotos de seus filhos e de seus cãezinhos. A atividade cerebral evocada pelas imagens era semelhante nos dois casos, indicando que o instinto materno é estendido aos animais. "Ouvir o ronronar de um gato ou acariciar um bicho por cerca de 20 minutos também ativa a liberação de prolactina, hormônio ligado ao prazer e à produção de leite", relata a psicóloga e pet terapeuta Karina Schultz, de Porto Alegre. Dá até pra entender aquele tratamento à base do "Vem aqui com a mamãe", né?

 

Fonte: Revista SAÚDE É VITAL - novembro/ 2015 - nº 396. Por Silvia Lisboa . (Obs.:colocamos aqui apenas parte da reportagem)