TOQUES COM AVAL DA CIÊNCIA

O toque de um terapeuta não é só um toque. Ele reverbera na pele, nos vasos, nos nervos, nos músculos, no cérebro ... Por causa desse efeito, digamos, sistêmico, seu potencial não tem escapado ao crivo de estudiosos. Nos Estados Unidos, o próprio governo custeia projetos para testar o impacto de sessões de massagem contra determinadas doenças. Lá, há inclusive um centro de pesquisas dedicado ao assunto, o Touch Research Institute, que, fundado em 1992, já mapeou benefícios em mais de 100 trabalhos. Ê claro que os toques não acabam, da noite para o dia, com um problema de saúde, mas parecem auxiliar o corpo a retomar o caminho do bem-estar.

 

Por massagem entenda um conjunto de manipulações que exercem uma ação mecânica e reflexa sobre tecidos e órgãos. Existem vários estilos, intensidades e locais de aplicação. "Entre os efeitos conhecidos, temos o controle de inchaços, ganhos à circulação, redução da dor, melhoras em processos inflamatórios e relaxamento", lista Osvaldo Takeda, coordenador do Núcleo de Cuidados Complementares e Integrativos do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo. Sua capacidade de derrubar o estresse é, de fato, um dos pontos mais comprovados. As sessões baixam a carga de cortisol, hormônio liberado durante o nervosismo, no sangue. "Toques com pressão moderada repercutem ainda no nervo vago, o que, como resposta, desacelera os batimentos cardíacos", conta a massoterapeuta paulista Ana Paula Previdi, da escola ayurvédica, de origem indiana. "A massagem contribui para superar a tensão originária de emoções que não elaboramos no cotidiano", completa Alexandre Rivero, mestre em psicologia que atua em São Paulo. Existem várias técnicas amparadas no toque terapêutico, boa parte derivada dos princípios da massagem clássica. "Os movimentos básicos são o deslizamento superficial sobre a pele, o amassamento e a percussão, que envolve batidinhas sobre o corpo", descreve a fisioterapeuta Viviani Teixeira, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. E dá pra dividir os métodos de acordo com a sua orientação: fisiológica, energética ou mista. "A primeira visa a desintoxicação do organismo, enquanto a segunda busca a reorientação da energia vital", define Ana Paula. O fisioterapeuta Rodrigo Renato da Silva, professor da Universidade Metodista de São Paulo, destaca, entre as aplicações consagradas, a reabilitação de problemas que afetam a musculatura e o esqueleto. As indicações, porém, não param por aí. Surgem evidências de que até o tratamento da depressão, da hipertensão e do câncer tem a ganhar com sessões de massagem. Se empregado por um bom profissional e não houver contraindicações - daí a importância do ok do médico -, o toque tem tudo para exibir um autêntico poder terapêutico.

 

ADEUS, ESTRESSE:
A massagem é uma das melhores invenções da humanidade para apaziguar a tensão. Testes mostram que a pressão dos dedos sobre o corpo instiga liberação de endorfina, gerando sensação de prazer. "As sessões tendem a diminuir a frequência cardíaca e respiratória e baixar a concentração de hormônios como cortisol e adrenalina", explica Juliana Gama, terapeuta do Olimpia Spa, Day Spa & Wellness, na capital paulista...

 

SEGURA A PRESSÃO:
É de supor que, por frearem o estresse, técnicas de massagem tenham um retorno positivo sobre a pressão arterial. Mas a ciência não vive de suposições. Por isso, uma equipe da Universidade Médica de Taipei, em Taiwan, conduziu uma revisão de estudos que avaliaram o impacto do método em pessoas hipertensas ou pré-hipertensas. A conclusão é positiva. Há uma queda moderada na pressão sistólica (a primeira do valor medido) e uma pequena redução na diastólica (o segundo valor)...

 

AS DEFESAS AGRADECEM:
Um experimento do Centro Médico Cedars-Sinai, nos Estados Unidos, comprovou que o toque terapêutico é realmente capaz de interferir no sistema imune. Na pesquisa, 29 dos 53 voluntários foram submetidos a uma sessão de massagem de 45 minutos. Depois desse período, os investigadores colheram amostras de sangue e saliva. Ao comparar com os dados da turma que não foi massageada, viu-se um aumento no número de células de defesa, bem como no de ocitocina, conhecido como hormônio do amor...

 

ONDE FALTA EVIDÊNCIA?

Os estudos ainda não são conclusivos em relação ao papel da massagem frente a ...

... Demências - Embora um estudo australiano indique redução da agitação em pessoas com declínio cognitivo que receberam massagens nos pés, uma revisão científica do Instituto Cochrane postula que ainda não existem pesquisas bem conduzi das capazes de acusar benefícios diretos.
... Feridas na pele - Um levantamento chinês sugere que faltam dados seguros para recomendar o método na prevenção de lesões cutâneas em pessoas acamadas. Já um trabalho iraniano verificou que 20 minutos de shiatsu nas mãos ajudam a aplacar a dor e a ansiedade em pacientes com queimadura grave.
... Fibromialgia - Uma revisão assinada por pesquisadores brasileiros assinala que a massagem pode elevar a qualidade de vida das pessoas com essa síndrome dolorosa, mas nem todas as técnicas trazem resultados. Nesse caso, shiatsu e massagem clássica não seriam tão efetivos.

 

MIL E UMA MASSAGENS

Existem diversos tipos de manipulação. Selecionamos e esclarecemos alguns dos mais utilizados por aqui:
Massagem Clássica - Também chamada de sueca, por causa de sua origem, se vale de manobras de amassamento, deslizamento, fricção e movimentação articular. Tem aplicações múltiplas: do controle de dores à eliminação de gases.
Shiatsu - Criada no Japão, a técnica está ancorada em movimentos dos dedos e da palma da mão que pressionam determinadas áreas do corpo. O rol de indicações é amplo e envolve o combate à ansiedade e melhoras na circulação.
Acupressão - lembra o shiatsu, mas se baseia exclusivamente nos pontos utilizados pela acupuntura. Está indicada para dores na lombar e no pescoço, problemas musculares, distúrbios do sono e doenças respiratórias.
Massagem Esportiva - Como o nome entrega, atua na preparação muscular para prevenir lesões ou na recuperação de atletas. Incrementa a circulação local e auxilia a eliminar substratos que se acumulam no corpo.
Massagem Ayurvédica - Faz parte de um sistema holístico que lida com corpo e mente praticado na índia há 7 mil anos. Por causa dessa abordagem integral, não tem aplicações definidas. A técnica shantala, para bebês, é inspirada nela.
Drenagem Linfática - Seu foco é acelerar a eliminação da linfa, isto é, do conteúdo dos vasos linfáticos. Isso facilita a retirada de impurezas e do excesso de líquido que pode se depositar no organismo. Popularizou-se nas clínicas de estética.

 

UMA MÃO PARA ANIMAR

Pesquisas com mães adolescentes grávidas, idosos e pessoas que sofreram um trauma sugerem que o toque terapêutico efeito antidepressivo. Em avaliações feitas com base testes laboratoriais, já se descobriu que o método chega elevar a liberação de serotonina, um mensageiro químico cerebral associado à sensação de bem-estar - alguns medicamentos contra a depressão visam justamente aumentar a oferta desse neurotransmissor. "Os ajustes nos níveis dessas e de outras substâncias no cérebro são essenciais para o controle de diversas doenças psiquiátricas, como a própria depressão, transtornos de ansiedade e dependência química", justifica a psiquiatra Renata Bataglin, do Hospital e Maternidade São Luiz.

 

ALIADO NO CÂNCER

Embora exista certa polêmica sobre o uso de massagem durante o tratamento da doença, alguns centros respeitados já a incluem no seu arsenal de medidas complementares. É o caso do Hospital lsraelita Albert Einstein, em São Paulo. O biólogo Fábio Romano, um dos coordenadores do programa de toque terapêutico, explica que o método é adaptado a esses pacientes. "Usamos toques leves para proporcionar estímulos que gerem conforto e relaxamento", explica. "Já observamos melhoras também em relação a náuseas, fadiga e perda de apetite." É evidente que a massagem só entra em cena com liberação do oncologista. E técnicas como a drenagem linfática merecem mais cautela, sendo desaconselhadas em alguns quadros.

 

ATÉ PARA CRIANÇA

Os baixinhos também podem tirar proveito de massagens específicas. A mais recomendada é a shantala, técnica de origem indiana que pode ser feita a partir do primeiro mês de vida, desde que o bebê não apresente restrições médicas. "A prática ameniza a cólica, regula o intestino e ainda ajuda a melhorar o sono", enumera algumas de suas vantagens a psicóloga Gabriella Demarque, profissional do curso de shantala do Hospital e Maternidade São Luiz. O bacana é que as mães podem aprender os movimentos para fazer em seus filhos, o que alimenta o vínculo entre eles. A técnica também presta serviço a crianças mais velhas. "Nesse caso, orientamos realizar a massagem no local em que elas mais gostam", diz Gabriella.


Fonte: Revista Saúde é Vital - agosto/15 - nº 393 - por Priscila Gorzoni ( fontes: Célia Kuperman, Terapeuta e sócia-diretora do Instituto Qualidade de Vida; Cristina Andrade, Terapeuta Corporal; Maprem Ila, diretora-presidente do Instituto Brasileiro de Terapias Ayurveda; Nelson Rosa Júnior, Massoterapeuta; Juliano Amato, Técnico na área de saúde do SENAC Santos (SP); Maria Clara Piaza, professora do SENAC Osaco (SP); Flávia Bella, terapeuta; Flávia Rolim de Moura e Rosilene Sanches, fisioterapeutas do Hospital Marcelo Champagnat; Márcia Resende, psicóloga; Raquel Garcia, Infectologista do Hospital São Luiz; A Bíblia da Massagem – Ed. Pensamento; O Novo Guia Completo da Massagem – Ed. Manole).

Obs.: Reproduzimos parte da reportagem.