VACINA CONTRA A GRIPE: VALE A PICADA?

(Priscila Boccia- texto retirado da Revista  Saúde / março / 2005)

             De graça, até injeção na testa, diz a piada.  Não é bem assim. Nem todo mundo encara a picada numa boa. Nem mesmo os que não pagam por ela — por exemplo, idosos, o grande alvo da campanha nacional contra a gripe, e funcionários de empresas que bancam os custos do programa de vacinação. Até essa gente pensa duas vezes antes de ir aos postos de saúde para receber a dose a que tem direito. Quem precisa gastar os 40 reais cobrados por ela, então, nem se fala.
A vacina foi malfalada nos anos l990. E com razão. Sua eficácia era de apenas 30%. "Antes de 1998, o Brasil aplicava o imunizante usado no hemisfério norte, que combatia os vírus de lá", justifica João Toniolo Neto, geriatra do Grupo Regional de Observação da Gripe da Universidade Federal de São Paulo. O influenza,  vírus causador da gripe, possui uma infinidade de variantes. É inviável contemplar todas elas numa só vacina.
            Hoje. para determinar as três variantes do inimigo que presumivelmente vão dar as caras por aqui, investigam-se os vírus que rondam o hemisfério sul. No Brasil há 35 centros que fazem esse trabalho. Neste ano, uma nova cepa atende pelo nome de Wellington. E o imunizante estará a postos para proteger a população dele na segunda quinzena de março (2005). Estima-se que sua eficácia seja de 75%, ou seja, a quatro investidas do vírus, só uma deverá ser bem sucedida. Esse efeito, porém, só vem depois de duas semanas. Nesse meio tempo, o influenza tem toda chance de aparecer - e acontecer.

           Há quem se queixe da eficiência da injeção antigripal por confundir as coisas. Por exemplo: dor de garganta não é nem nunca foi sinal de estar gripado. Trata-se de uma complicação típica do mero resfriado, que tem outros vírus por trás  - e que, por sinal, nem sempre provoca febre, diferentemente da gripe. "Há 340 vírus que atacam o sistema respiratório e os rinovírus do resfriado são alguns dos mais freqüentes", explica a virulogista Terezinha de Paiva, do Laboratório de Vírus Respiratórios do Instituto Adolfo Lute, em São Paulo.
Mais que poupar nosso corpo de febre, mal-estar, dores musculares e tosse, a vacina da gripe visa evitar conseqüências graves, como a pneumonia. Pesquisas da Universidade Estadual de Campinas comprova que a vacinação dos idosos diminuiu a mortalidade nessa faixa etária no estado de São Paulo.

            Todos os anos o Brasil importa 17 milhões de doses para idosos e portadores de doenças crônicas. Até que o país consiga produzir a vacina, o que deverá acontecer a partir de 2007, as crianças, os profissionais da saúde e os adultos jovens continuarão fora da campanha. Podem se vacinar, mas têm que desembolsar por isso.

 

E   ATENÇÃO!

 

           Gripe mata sim! A cada 30 anos o influenza muda por completo. Aí o sistema imunológico não o reconhece e sucumbe ao ataque inimigo. Em 1918, a gripe espanhola foi causada pelo influenza H1N1, que em princípio atingia as aves, mas que passou a disseminar-se entre os seres humanos.