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"A ciência comprovou que o bom humor
previne e ajuda a combater doenças.
Aprenda a cultivar este estado de espírito"

Com dois ossos de um braço e outros três de uma perna quebrados — um
deles, imagine só, uma fratura exposta! —, você acharia graça em alguma
coisa? Pois Ursula Kirchner, que se viu nessa situação após cair de uma
escada, não parou de rir durante as cinco horas que esperou pelo
atendimento médico. "Agi assim para renovar meu estoque de endorfina",
conta essa alemã radicada no Brasil, com a autoridade de quem é doutora em
medicina e odontologia pela Universidade Livre de Berlim. "Cheguei ao
hospital sem sentir nada."
Ursula acredita que o jeito bem-humorado de encarar a adversidade ajudou a
abreviar o tratamento — ela tirou o gesso um mês antes do previsto e
dispensou drogas contra dor. Explica-se: o bom humor estimula a produção
de endorfina, um analgésico natural, e fortalece a imunidade — mostra uma
pesquisa do professor Lee Berk, da Escola de Medicina da Universidade de
Loma Linda, na Califórnia, nos Estados Unidos. É que as risadas aumentam o
número e a atividade das células N K (do inglês natural killers), um tipo
de linfócito capaz de identificar e destruir vírus e até tumores. Basta
assistir a 30 minutos de um vídeo divertido para aumentar os níveis de
imunoglobulina A, um tipo de anticorpo presente na saliva com o poder de
afastar resfriados e gripes.
Até o coração sai ganhando. Gente bem-humorada produz mais serotonina, um
neurotransmissor que dificulta a aderência de plaquetas capazes de formar
coágulos — um perigo para as artérias. "A idéia de que o bom humor está
diretamente relacionado à saúde não é metafísica. É uma realidade",
salienta o psiquiatra Geraldo Ballone, que foi professor da Pontifícia
Universidade Católica de Campinas, no interior paulista.

Mas o que é, afinal, o bom humor?
Um de seus sinais é o riso, mas isso não é tudo. "Para a psiquiatria, a
pessoa bem-humorada é aquela que mais bem se adapta aos problemas e sofre
menos com eles", resume Ballone. Já está comprovado que gente assim produz
menos cortisol e adrenalina, os hormônios do estresse — verdadeiros
venenos a longo prazo, porque elevam a pressão arterial. O bom humor
depende da genética e do esforço pessoal para encarar tudo de uma maneira
mais leve. "A ciência já provou que a vida não é boa nem ruim. A visão que
temos dela é que a torna melhor ou pior", opina a neurocientista Silvia
Cardoso, fundadora do Instituto para a Educação em Medicina e Saúde, em
Campinas. Ela define como bem-humoradas as pessoas que decidem ver a vida
sob um ângulo positivo.
O médico indiano Madan Kataria defende que a risada não é só conseqüência,
mas também fonte do bom humor. "Mesmo que você ache que não tem
motivos para isso, procure rir", recomenda aos seus pacientes. "Em
segundos a risada forçada se torna verdadeira." Os efeitos no corpo são
imediatos. "Com o riso, a pressão sanguínea se normaliza e a tensão
muscular e a dor diminuem", diz Silvia. Foi acreditando no poder dessas
reações que Kataria deixou a medicina tradicional há dez anos para fundar
o primeiro Clube da Gargalhada, onde pessoas se reúnem apenas para...
adivinhe! Sim, rir. Hoje existem cerca de 5 mil clubes do gênero em 40
países do mundo.
No começo, Kataria contava piadas para estimular as gargalhadas. "Mas logo
meu estoque se esgotou", revela. A saída foi forçar o riso por meio de
exercícios de respiração. Ele descobriu que bastam poucos segundos de "há-há-há"
para contagiar grupos inteiros. "A risada é como uma meditação. Quando
você ri, não consegue pensar em outra coisa", explica Ursula, a alemã que
sofreu as fraturas sem perder o bom humor. Depois de fazer cursos na índia
com o dr. Kataria, ela resolveu fundar, ao lado de Mari Vieira, professora
de ioga, o primeiro Clube da Gargalhada no Brasil, na cidade mineira de
Belo Horizonte. Todas as quartas-feiras ela reúne pessoas na praça da
Liberdade e incentiva a risada. "O brasileiro precisa voltar a rir como há
20 anos, quando cheguei aqui", justifica. "O bom humor desse povo foi se
perdendo, mas dá para ser recuperado." De que maneira? Rindo muito, ora!

( por Melina Costa - texto retirado da Revista
"Saúde é Vital" , nº 278)

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